domingo, 27 de abril de 2008

A Razão Diabólica


José Arthur Giannotti (precisa ter assinatura), na Folha de hoje, fala sobre o discurso de Bento 16 na ONU, referindo-se a ele como pérola do pensamento conservador. Além de toda questão política comentada, me interessa mais a relação entre ciência e religião que o papa usa como argumento e que Giannotti critica. Vejamos o papa:

"Deste modo o nosso pensamento se dirige ao modo como os resultados das descobertas da pesquisa científica e tecnológica foram aplicados. Não obstante aos grandes benefícios que a humanidade pode tirar deles, alguns aspectos de tais aplicações representam uma clara violação da ordem da criação a ponto de não contradizer somente o caráter sagrado da vida humana mas a própria violação da pessoa e da família em sua identidade natural."

Giannotti questiona a noção de identidade - crítica óbvia - o que faz muito sentido para ironistas (no sentido rortyano do termo), mas nenhum sentido para o homem que ocupa o cargo mais metafísico da humanidade. Ele acredita sim em essências!

Segue o sumo pontífice:

"
Do mesmo modo, a ação internacional, na busca de preservar o ambiente, e proteger as várias formas de vida sobre a terra não deve garantir somente um uso racional da tecnologia e da ciência, mas deve redescobrir a autêntica imagem da criação. Isto não exige nunca uma escolha entre ciência e ética, mas se trata de adotar um método científico que respeite verdadeiramente os imperativos da ética."

Isso daria uma tese. Alguém tem dúvida de que Habermas assinaria a primeira frase se ela não terminasse com a tal "imagem da criação"? Uma razão compartilhada internacionalmente é seu sonho de consumo. Por outro lado, se não existe método científico subordinado a imperativos morais, pode haver um consenso de pares - vamos por aqui ou melhor trabalhar por lá, call for papers sobre determinado assunto, etc. O cientista publica, mantém os grants, a revista publica, mantém as assinaturas e patrocínios, a massa cita o artigo, fica "estudada" (ver Manoel de Barros) e fica todo mundo feliz! Só que isso vale para a ciência normal kuhniana.

No caso das grandes descobertas é diferente. Para Giannotti existe uma razão diabólica por trás delas: "Foi diabólico para os pitagóricos pensar os números irracionais, foi diabólico para toda a razão convencional do século 19 pensar que a espécie humana tivesse uma origem comum àquela dos macacos, e, atualmente, é diabólico pensar que uma pessoa possa ser clonada."

O argumento de Giannotti é que o papa quer subordinar, inclusive pela força (ver o final do artigo), a ciência a uma visão de fé (ecumênica até) com todos os desdobramentos que isso possa acarretar. É claro que isso não vai dar certo nunca!

O ponto aqui é que o papa argumenta sobre um assunto polêmico e extremamente necessário com as armas de que dispõe. Ou Giannotti esperava ver o papa pedindo desculpas (de novo!) a Galileu e assumindo a culpa na Inquisição? Este blog vem defendendo a reflexão, de preferência conjunta, como medida da razão desenfreada. O papa faz exatamente isso com sua linguagem metafísica e altamente conservadora. Mas o que deveríamos esperar de Ratzinger?

O cientista produz um poder sobre o qual não tem controle. Giannotti chama isso de diabólico pois é ousado, transgressor, invasivo e agressivo. É quase ciência heavy-metal. Tudo bem. Mas acho bem mais diabólico, no sentido de "do Mal" (como dizem meus filhos) a apropriação desse conhecimento para outro fim que não minimizar as aflições da espécie humana e do planeta em geral, o que, no fundo, é quase a mesma coisa.

7 comentários:

Anônimo disse...

Karl, não entendi a sua posição. Você comunga das idéias de Gianotti ou está do lado do nosso querido sumo pontífice?

Karl disse...

Bento 16 defende uma racionalidade científica compartilhada unida por pela verdade cristã. Giannotti arguto e debochado, associa ao método científico, um certo olhar que chama de diabólico.

A linguagem de Bento 16 não faz sentido para Giannotti (e para toda comunidade científica, creio eu!). A linguagem de Giannotti é dawkiniana. Nem arranha convicções cristãs.

Entretanto, o papa está certo quando afirma que a racionalidade ocidental deva ser de algum modo controlada. Erra no método de controle. Giannotti apenas denuncia o erro (que, aliás, todo mundo já sabia!)...

Obrigado pela pergunta.

Anônimo disse...

Caro Karl, questão intrigante esta do "controle da racionalidade ocidental". Você acredita que o III Reich passou do controle da racionalidade? É possível conciliar uma racionalidade excessiva, descontrolada, com a fé em Deus?

Karl disse...

O III Reich foi considerado pelos frankfurtianos como fruto de uma hiperracionalidade das teorias emancipatórias oriundas da Teoria Tradicional (cânone Platão-Descartes-Kant) do qual a servidão voluntária de La Boétie é visionária.

Quanto a segunda questão: Acho que não, caríssimo Aleph. Refletir sobre a racionalidade pode, no máximo, produzir uma anti-racionalidade; nunca uma irracionalidade...

Anônimo disse...

Caro Karl, obrigado pelas respostas. Percebo que não estou lidando com peixe pequeno...

Abraço!

Karl disse...

Isso significa que, ou não me fiz compreender - onde perco; ou me fiz intimidador ao caríssimo interlocutor - e perco duplamente...

Como reparar?

Anônimo disse...

Não houve perdas, só ganhos!

Abraço alviverde!